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sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Drogas Alucinógenas

Não amesquinhemos o perigo, se queremos evitá-lo - Rui Barbosa

 


Vem de longe data a história dos estupefacientes ou alucinógenos, cujo uso se restringia, a princípio, aos rituais religiosos.
Os antigos chineses, indianos e persas já conheciam o cânhamo, do gênero cannabis a que pertence o haxixe ou maconha. Há referências a esse vegetal na literatura grega e assíria de 1000 anos antes de Cristo. Considerado entre os hindus como planta sagrada trazida do oceano pelo deus Siva, o cânhamo, mais tarde, penetrou nos meios maometanos e algumas seitas o tinham como "uma corporificação do espírito de um profeta". Para certas tribos da África Central, chegou ao cúmulo de tornar-se virtualmente num deus. Expande-se, durante a Idade Média, na índia, Oriente Próximo e Médio e África do Norte. Por volta de 1800 é introduzido na Europa, daí se espalhando por todos os quadrantes da terra.
No México, os índios dedicam verdadeira adoração a uma planta, o "cogumelo sagrado" (amanita muscaria), que lhes aguça a percepção sensorial produzindo sonhos e visões.
Há vários séculos, outro alucinógeno natural, o pelote, um cacto originário do México e da América Central, era usado pelos astecas e por várias tribos de índios americanos. Chegou às planícies dos Estados Unidos e ao Canadá, levado pelos apaches Mescaleros. Donde o nome de mescalina dado ao princípio ativo do peiote.
Refere John Cashman no seu livro "The LSD Story":
"Como o peiotismo se tornou muito ligado ao cristianismo, as crenças religiosas entre os índios foram modificadas para nelas introduzir a idéia de que Deus colocara alguns dos seus poderes no cacto peiote, e Jesus Cristo dera a planta aos índios numa época de necessidade".
De aparecimento relativamente recente - descoberta acidentalmente numa pesquisa de laboratório, em 1938, - uma droga vem causando sérias preocupações ao mundo inteiro. É o tartarato de dietilamina do ácido lisérgico, comumente chamado LSD.
Há quem cante hosanas ao LSD, quem afirme que ele não cria "dependentes", não vicia. Que o LSD proporciona "uma visão sacramental da realidade" que é remédio milagroso, que é um "abre te Sésamo" para a libertação da alma. O dr. Timothy Leary, dos Estados Unidos, chegou a fundar a "religião" da droga, que, positivamente, só pode ser uma "droga" de religião...
A verdade, porém, é que os efeitos perniciosos do LSD são evidentes.
Está provado que seu uso pode levar à loucura, à morte ou ao suicídio.
Explica Cashman, que é reconhecida autoridade no assunto:
"Uma dose de LSD pode projetar um homem aos trombolhões através de sua própria mente. Menos de um quilo de droga seria suficiente para que toda a população da cidade de Nova Iorque fizesse a mesma viagem. Pouco mais de 18,200 kg, divididos em doses iguais, atingiriam cada homem, mulher e criança dos Estados Unidos e seu espaço interior".
Esclareça-se que "viagem" (trip, na gíria norte-americana) designa o estado alucinatório em que fica quem experimenta os efeitos da droga.
No seu livro Tóxicos, adverte o general Jayme Ribeiro da Graça:
"Mas o pior dos efeitos é, sem dúvida, o da fabricação de monstros, conseqüência do deslocamento dos cromossomas... Muitos casos registrados mostram que recém-nascidos miam feito gatos e têm características diferentes dos da espécie humana",
Por seu turno, o dr. Arthur H. Cain, em "Jovens e Drogas", cita os seguintes casos relacionados com o uso do LSD:
"No Oregon, uma jovem mãe trouxe seu filho recém‑nascido; para ser examinado. A criança apresentava um defeito no tubo intestinal e sua cabeça estava assumindo uma forma grotesca - um lado do rosto crescia mais rapidamente do que o outro. (...) Dois jovens de Oregon apresentavam também anormalidades cromossomáticas que parecem idênticas aos primeiros estados de leucemia, o câncer incurável do sangue que proliferou em Hiroschima após a explosão da bomba atômica".
Quanto aos efeitos psicológicos dos tóxicos, as alucinações, deformação e hiperestesia da percepção auditiva, transformação da personalidade - tudo isso caracteriza um estado anormal que não só acarreta danos ao corpo material, mas afeta igualmente a saúde do espírito. Muito senso, evidentemente, na sentença de Juvenal: "Mens sana in corpore sano".
A tão decantada "viagem" dos tomadores de "bolinhas" não passa, em última análise, de um desdobramento do espírito. Eles realmente vêem alguma coisa do mundo espiritual, embora as deficiências do cérebro material não lhes permita guardar, quando do "regresso", senão uma lembrança deformada cada dos quadros presenciados.
A ação fisiológica do tóxico facilita a exteriorização do perispírito, tal como acontece nos estados de coma, arestesia e hipnose profunda.
A "viagem" representa, assim, um "Desdobramento" provocado.
Tanto isso é certo, que um grande apologista dos psicotrópicos, Aldous Huxley na sua famosa obra "As portas da percepção". assinala:
"Há certos médiuns para os quais as revelações que se manifestam, por breves períodos, nos indivíduos que ingerem mescalina, são uma experiência diária, de todas as horas, por longos espaços de tempo".
Adiante o escritor:
"O que nós outros vemos sob a influência da mescalina pode a qualquer tempo, ser visto pelo artista, graças a sua constituição congênita".
Exato. É que o artista também é médium.
O que precisamos ter em conta é que, se a mediunidade natural permite o desdobramento do espírito sem causar danos ao percepiente, o mesmo não acontece quando se provoca o fenômeno por meios artificiais ou violentos.
Os tóxicos produzem o depauperamento do organismo e a escravidão ao vício.
        Uma porta aberta à obsessão.

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